Leia como quem beija

Beije como quem escreve

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domingo, 15 de abril de 2012

Parâmetro


Parâmetro

O homem,
em sua grandeza titânica,
esmaga o inseto

O infarto,
em sua destreza tácita,
demole o homem

O leitor,
bebe o poema e disseca o verso

Homem, leitor e inseto
partilham o mesmo futuro incerto

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um sorriso sem graça...

    Quando Chico Anysio morreu, a voz de um mestre se calou, ao passo em que sua obra rumou para o curso dos tempos. Dos tempos duradouros.
    Várias instâncias da mídia televisiva anunciaram e lamentaram a morte do maior humorista do Brasil: Chico Anysio. Ao ouvir repetir-se este título, do qual Francisco Anysio de Oliveira paula Filho (1931 - 2012) foi amplamente merecedor, percebi que o referido título é como uma moeda: é um único elemento, mas tem duas faces.Não, Chico não tem (ou tinha) duas faces, duas caras - até porque ele tinha mais de uma centena delas através de seus brilhantes personagens. Refiro-me ao fato de este título só poder ser compreendido e usado em sua plenitude, se insurgir na outra face da moeda o rosto do magnífico Millôr Fernandes, um ás da língua portuguesa. O curioso é que eu me preparava para escrever este texto de modo a prestar homenagens a um mito morto e outro vivo, incomodado que estava com a incompletude daquele título. Porém, a morte de Chico ocorreu em pleno frigir da 3ª FLIBO (evento do qual faço parte na organização), o que não me possibilitou escrever logo o texto, e quatro dias depois Millôr, o outro maior humorista do Brasil, também se foi.
    Milton/Millôr Viola Fernandes (1923/1924 - 2012) não era tão mencionado na TV quanto Chico. Contudo, esbanjou talento e criatividade nas páginas de revistas, jornais, livros e peças de teatro. Se, por um lado, Chico tinha a rede globo ao seu lado, dando-lhe projeção e visibilidade monstruosas, Millôr, por outro, tinha a liberdade de não ficar refém da censura da TV, elaborando pensamentos, apotegmas, dislates, imprudências, heresias cortantes, sarcásticas, e não menos inteligentes. Ora sinto-me impulsionado a dizer aqui que Millôr, enquanto artista, foi maior que Chico. Ora sou levado a pensar em fazer o contrário, elevar Chico sobre Millôr. Todavia, percebo que cometeria uma heresia se o fizesse, dada a importância e incontestável valor de ambas as obras. Mas percebo que uma capacidade tão potente e prolífica de criar, com uma qualidade tão notável e espantosa, dispensa classificações hierárquicas para ambos, e os alocam em um lugar onde os grandes não ocupam espaço nem posição, mas apenas perpetuam-se; embora haja um traço que distingue Millôr de Chico: o primeiro podia atirar em deus e o mundo, o segundo só podia atirar no mundo. 
    Acho que esses dois dias de março de 2012 foram (e provavelmente serão) os únicos dias da história do Brasil em que, ironicamente, a tristeza sobrepôs o riso.


quarta-feira, 14 de março de 2012

Evento Literário

3ª FEIRA LITERÁRIA DE BOQUEIRÃO


    A paraíba, definitivamente, conta com eventos literários perenes. Prova disso é a 3ª FLIBO, Feira Literária de Boqueirão, que se realizará na cidade de Boqueirão, paraíba, situada a 45 quilômetros de Campina Grande. O evento terá início no dia 21 de março de 2012, com uma marcha pela literatura às 16:00, e às 19:00 a abertura oficial no CEFAR. A partir da quinta feira o público poderá aproveitar palestras, oficinas, mesa redondas, lançamentos de livros, saraus e apresentações musicais após as palestras da noite.
    Os escritores homenageados da FLIBO 2012 serão Braulio Tavares e Lourdes Ramalho, ambos paraibanos.
    Até sábado (24/03), todos que comparecerem terão a oportunidade de apreciar a literatura de variadas formas, de conhecer autores importantes em atividade no Brasil, de adquirir livros recém saídos da gráfica, enfim, de poder se deleitar com essa arte que atravessa os séculos movimentando o conhecimento e a imaginação. Boqueirão estará de portas abertas esperando a sua presença.

Este é blog onde é possível encontrar a programação da FLIBO:  flibo2012.blogspot.com

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Entrevista com Bráulio Tavares

Entrevista com o renomado escritor paraibano Braulio Tavares, na ocasião de sua participação no III Encontro de Literatura Contemporânea, realizado pelo Núcleo Literário Blecaute, que integrou as atividades do 21º Encontro da Nova Consciência em Campina Grande, PB, em 19 de fevereiro de 2012. A entrevista foi cedida ao escritor Maxwell F. Dantas, membro da ABES, Associação Boqueirãoense de Escritores.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Circunstâncias

    A maioria das pessoas, por aqui, demonstram muita facilidade em porem suas vidas em risco. No entanto, protegê-las parece uma tarefa complicada, para a qual o esforço não vale a pena.Vamos aos fatos: motoqueiros não dão muita importância ao capacete, peça que pode proteger a parte mais importante do seu corpo - a cabeça. Ai você diz: "Mas eu já vi você, Maxwell, pilotando moto sem capacete!". E eu te respondo: "Sim, mas depende de algumas circunstâncias. Na cidade, sim. Na BR, não". Então, depois de uma sensata discussão, chegamos a conclusão de que eu posso fazer da minha vida o que eu quiser, mas da vida dos outros não. Um ônibus em condições mecânicas precárias pode matar dezenas de pessoas de uma só vez, facilitando, assim, o trabalho da Dona Morte.  Uma empresa de ônibus, por exemplo, não têm o direito de por a vida dos passageiros em risco. Mas, diante de uma empresa cuja frota de ônibus quebra com frequência e deixa transparecer com clareza a deterioração de seus veículos, a maioria de seus usuário(a)s só consegue, no máximo espernear e grunhir, ao invés de tomar uma medida efetiva, como procurar o órgão fiscalizador competente e executar a forma cabível de requerer providências. As reclamações (que já ouvi aos montes dentro do ônibus) são jogadas ao vento, ou nos ouvidos dos cobradores e motoristas, que nada podem fazer de eficaz.
    Outra alternativa seria recorrer ao quarto poder: a imprensa, a mídia de modo geral - de preferência, a televisiva, por sua abrangência. Mas parece que há uma tendência patológica de quem reclama em achar que a pessoa mais adequada para fazer isso é o outro, o vizinho, o cara mais alto, o mais falador, enfim, qualquer um menos "eu". Parece que na hora de assumir a responsabilidade, as pernas enfraquecem, a boca perde o movimento, a voz se exaure, os músculos se paralisam.
   Reclamar às pampas de problemas sociais é delicioso, suculento, mas coragem para assumir a responsabilidade e tomar a iniciativa de dar o primeiro passo, quase ninguém quer. Deve estar fora de moda; deve ser isso.
     Além de tudo que já disse aqui, vou ser obrigado a encontrar um adjetivo mais potente e abrangente, que possa simbolizar todo o meu desapontamento. Isto porque escrevia eu este texto quando fazia o trajeto Boqueirão - Campina Grande, em um veículo da Viação Rio Doce, quando percebi, no acostamento da rodovia, um funcionário da referida viação fotografando os enormes buracos na rodovia enquanto o ônibus passava com dificuldade por eles, num trecho próximo à cidade de Queimadas. Simultaneamente a minha observação do fato, enquanto uma fagulha de esperança se acendia em mim, por ver uma iniciativa do tipo das que eu reivindico neste texto, uma passageira ao meu lado tratou de jogar um "carro-pipa" de água fria sobre a fagulha, declarando com uma propriedade estonteante, em um tom de voz desdenhoso: "Nem adianta tirar fotos dos buracos... o governo não resolve mesmo!". De um lado, uma atitude. Do outro, o seu carrasco.
    Dizem por aí que vivemos em uma democracia. Dizem, também, que democracia (do grego demokratía) significa governo do povo. O que posso concluir da declaração da moça é que não adianta O POVO reclamar ou agir porque O POVO não resolverá.
    Será que estamos todos derrotados? Quando uso o verbo ESTAMOS, refiro-me a NÓS, o povo. E não confundam, não me contento simplesmente com gente empunhando paus e bandeiras com dois ou três líderes guiando uma multidão de embalistas ou reacionários. Não é tão simples. Não quero mártires. Será que alguém aí pode me responder o que eu quero?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

INATEFECÍVEL

INERTE, OFF-LINE, FORA DO AR, INCONSCIENTE, EM COMA, INDOLENTE, INDISSOLÚVEL, OPACO, ALUZÍDIO, FRUGAL, EMERSO, EMBUÇADO, NÊUTRON, SOPITADO, DESAZADO, VESANO, AZORATADO

sábado, 28 de janeiro de 2012

"Eu gosto de tudo um pouco"

Existem momentos nos quais é preciso ser "grosso". Esse é um deles.
"Eu gosto de tudo um pouco". Eu tenho a impressão de que quem gosta de tudo um pouco, não gosta muito de nada. Esta atitude parece ser fruto da preguiça de pensar ou do medo de se posicionar. Pensar não mata... pode cansar um pouco, mas matar, não mata! E a menos que seu posicionamento implique em risco de vida, se posicione (embora nem assim algumas pessoas deixem de se posicionar).
Vamos deixar esse negócio de gostar de tudo para quem já morreu, ou pra quem tem um programa de auditório em uma grande rede de televisão (é... porque com um salário desses, qualquer um sai gostando de tudo por aí...).
Odeie algumas coisas também, rapaz... de vez em quando é bom para a saúde. Dizem que não gostar de algumas coisas ajuda a queimar gorduras. Por outro lado, gostar demais, exageradamente, indiscriminadamente, não é das melhores escolhas. Principalmente, porque nos impede de detestar essa mesma coisa, caso seja necessário.
Num mundo onde gostar de tudo parece tão fácil, detestar um pouquinho pode ajudar a gostar com a luz acesa e os olhos abertos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Dentro

Dentro da palavra havia um grito
O mais ingrato grito audível
O grito de um segredo no escuro
Batendo e rebatendo nas paredes

Dentro do grito havia uma cor
Invisível no arco-íris,
Cujo tom esfarelado
Escondia um brilho quente

Dentro da cor havia um sonho
Longo louco turvo sonho
Em que se vê tudo desatento
Em que se vê um riso escondido atrás da porta

Dentro do sonho havia uma palavra
Escrita à lápis, escrita errada
Pronunciada pela mais bela boca
Ouvida pelo mais surdo ouvido
Vista pelo olho mais cético
Uma palavra da cor dos sonhos
Que soa como uma explosão
E se cala

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A morte de um gato qualquer

    Hoje de manhã meu dia começou com morte. Não a minha, é claro. Do contrário, eu seria um Machadiano defunto autor. Numa área da minha casa onde seria um banheiro (portanto, não muito espaçosa), uma gata que até então eu não criava, mas que a algum tempo se candidatava para a função, deu cria de quatro gatinhos. É uma área em L. Em cima é laje, porém, uma das paredes não é fechada até o teto, tem mais ou menos um metro e oitenta de altura. Foi por onde a gata entrou, e é por onde eu entro todas as manhãs (por volta das 6:00, antes de sair para o trabalho) para botar comida para eles. A escolha do lugar é típico da fêmea que procura um local seguro para suas crias. Porém, para os filhotes era impossível sair com apenas dois meses de vida, devido a habilidade ainda restrita. Então, desde que nasceram, só conhecem aquele espaço. Aquele é, até agora, seu único mundo.
    Hoje de manhã, quando subi na parede, vi três dos gatinhos remexendo por ali nos entulhos (eles acordam muito cedo), enquanto havia um deitado num canto de parede. Achei estranho, porque gatos, principalmente naquela idade, e no período da madrugada até o amanhecer, dormem geralmente enroscados em volta de si mesmos, e aquele estava com os membros relaxadamente estirados. Depois de abastecer a cumbuca com pão mergulhado em leite, peguei um pau e mexi nele. Nada. Mexi mais. Nada. Constatei e fiquei triste. Não foi uma tristeza igual àquela que senti quando tinha dez anos de idade e vi um gato de estimação em seus últimos suspiros, devido a um envenenamento, morrer perante mim. Foi uma tristeza de quem sabe que a morte não tem hora para chegar nem cerimônias para sair. Envolvi a mão com um saco plástico e o peguei, colocando-o, em seguida, dentro de outro saco maior. Deixei o saco perto do rio.
    No corpo dele não havia marcas de ferimento, o que me deixou intrigado sobre a causa da morte. No entanto, não é a causa da morte o tema deste texto. É algo mais específico e, talvez, pouco investigado ou imaginado: A sensação que precede a morte. Como é esse momento em que as luzes vão se apagando? Como a mente se comporta diante da iminente chegada do fim inexorável? Isto já representa um enorme abismo em se tratando de seres humanos (e, diga-se de passagem, já assalta meus pensamentos a algum tempo). Mas com os animais é ainda mais misterioso. Devo ressaltar que este fato chegou a tornar-se uma crônica porque havia uma ligação afetiva entre eu e o gato, pois não me perturbam as mortes dos bois que "dão" suas carnes para minhas refeições, embora eu não tenha a mínima coragem para matar um boi, um gato, uma rã, um rato. Uma cobra peçonhenta sim, por motivos óbvios. Mas, voltando à questão que se aplica, inclusive, aos bois, ratos, rãs... Como é o tal momento que precede os últimos suspiros, os últimos dois minutos, as últimas imagens registradas pelo olho, os últimos odores, os últimos barulhos?
    Costumamos dividir os animais entre racionais e irracionais. Eu me pergunto se é possível diferenciar a percepção dessas duas formas nesse momento final. Provavelmente, esta é uma questão que ganhará o desprezo e o repúdio da maioria das pessoas, pois buscar a sensação da morte deve, no mínimo, assustar a quase todos que leram esta crônica. Mas, se refletirmos sobre este momento...
(ESTE TEXTO É UM CONVITE AOS LEITORES PARA QUE, ATRAVÉS DE COMENTÁRIOS, POSSAMOS DAR CONTINUIDADE À REFLEXÃO SOBRE ESTE INTRIGANTE MOMENTO)
 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Feliz tragédia nova

    Nos tempos antigos, eram necessários profetas para prever fatos de proporções catastróficas. Hoje em dia as coisas mudaram muito no que diz respeito isto... Qualquer um pode ser profeta sem precisar de conexão com o divino. Eu falo sobre esse problema das chuvas e suas incomensuráveis consequências. Todos os anos, em janeiro, é a mesma coisa, parece que já faz parte da programação das redes de televisão. Logo que casas começam a ser destruídas e um monte de gente começa a morrer, o governo federal, mais os governos estaduais dos estados afetados, começam a liberar milhões em verba para reconstrução de cidades e "vidas". Que bonzinho esse governo! Em seguida vem aquelas declarações clássicas: "Esse sim é um herói, arriscou a vida para salvar aquela senhora e sua filha de apenas sete anos". Ou então: "Foi deus que me salvou".
    Espero que os leitores consigam chegar no núcleo desta questão. Francamente, as pessoas que constroem casas nas áreas de risco - em encostas, por exemplo - sabem que mais cedo ou mais tarde a chuva vai chegar e a casa vai der destruída; e se for só isso ainda está bom, porque muitas pessoas morrem soterradas ou afogadas. Mas vamos levar em consideração que muitas dessas pessoas não conseguem ter uma noção clara deste risco, seja por um baixo grau de instrução, de orientação ou qualquer forma de ignorância que os levem a subestimar as possibilidades. Vale salientar que não quero fazer juízo de valor sobre isso, mas apenas "botar as cartas na mesa".
    Em primeiro lugar, o governo - federal, estadual, municipal - deveria investir em formas de impedir a construção de casas nestes locais. Em segundo lugar, hoje em dia existe inteligência e tecnologia suficiente para que a estrutura das cidades estejam melhor preparadas para estes períodos de chuvas em abundância (com sistemas de drenagem mais eficazes).
    Às vezes é preciso que sejamos duros ao avaliar certas questões como esta, para não ficarmos lamentando depois. É como se colocássemos o dedo molhado na tomada e depois que levássemos um baita choque, disséssemos: "Aí meu deus, porque isso foi acontecer comigo". Porém, não basta ficar reclamando sem se mover, é preciso que o povo use do poder que tem: a capacidade de pensar e falar. Por exemplo, a imprensa está aí, doida para ter uma matéria para o jornal de amanhã. O povo também tem sua parcela de responsabilidade no que se refere a tomar iniciativa, ora bolas! Mas, no que se refere ao poder público, acho que o que falta para que estas atitudes preventivas aconteçam é que um parente de algum político influente morra em uma dessas áreas para que ações mais efetivas aconteçam. Ou talvez, quem sabe, se morrer alguma celebridade muito querida da rede globo, ou se as olimpíadas ou a copa tiverem eventos sediados em algumas dessas áreas...

domingo, 2 de outubro de 2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A crise

    Era Era uma vez uma empresa chamada Língua Portuguesa Brasileira. Esta empresa produzia gêneros de primeira necessidade para o mercado: frases, orações, textos, entre outros produtos. Entre seus principais funcionários estavam os verbos e os sinais de pontuação e de acentuação. Os verbos sempre tiveram posições de destaque na empresa, embora os sinais de pontuação e acentuação desempenhassem um trabalho intenso na produção industrial, mesmo quando os verbos estavam de folga ou de férias. Por isso, sempre houve pequenos atritos entre as duas categorias; contudo, nada que prejudicasse a eficácia dos processos produtivos.
    Nos últimos meses um rumor sobre uma tal crise no mercado internacional da Língua Portuguesa acirrou os ânimos dos funcionários. Como é comum em muitos segmentos profissionais, a possibilidade de crise não incomodou muito os alto-funcionários – os verbos. Por outro lado, os sinais de pontuação ficaram apreensivos: a exclamação andava exibindo por aí uma cara de espanto; as reticências esboçavam algumas discussões sobre a questão, mas, de tão nervosas, não conseguiam nem terminar as frases que começavam... A vírgula sempre pedia uma pausa nas discussões, e começava a dar exemplos do que podia acontecer: redução de textos, crescimento da linguagem não-verbal, demissões em vários setores.
    Para instalar de vez o medo e a insegurança, o travessão soube (através de um ponto e virgula que trabalhava no setor de publicidade) que, na produção de alguns anúncios, os gestores já estavam preferindo dispensar a pontuação e usar apenas substantivos (auxiliados por alguns adjetivos terceirizados) a nível de experiência, o que representava um perigo também para os verbos. Diante desta declaração, todos os sinais ficaram assustados. Mas os sinais de pontuação sabiam que nada tiraria o emprego dos verbos, o que representava um perigo maior ainda para sua classe. No fim, imperava as declarações da interrogação.
    No setor dos sinais de acentuação, o acento agudo liderava as discussões com sua entonação forte nas palavras; a crase (que era de esquerda) acusava o acento agudo (que era de direita) de não ter pulso, nem convicção ideológica, para enfrentar os patrões na hora H; o til não falava muito (sempre resfriado, sua voz nasalada não se impunha); o circunflexo (que sempre teve afinidade com o til) escutava discretamente.
Estas assembléias se dispersavam rapidamente quando os supervisores dos setores, as aspas, apareciam para ver o que estava acontecendo.
    Quando os rumores começaram a se tornar uma possibilidade real, o presidente da empresa, o Senhor Gramática, chegou a declarar sobre o assunto que a crise para a Língua Portuguesa era só uma “marolinha”, o que irritou os funcionários. Mas logo reconheceu que precisava se preparar para fazer algumas mudanças para enfrentar a crise, depois de uma longa conversa que teve com o conselheiro da empresa, o dicionário.
    Com a inevitável chegada da crise, eis as mudanças as quais a empresa Língua Portuguesa Brasileira precisou implementar para se adequar ao efeito colateral desta globalização da linguagem; alguns funcionários tiveram suas funções reduzidas ou simplificadas para não perder o emprego: o acento agudo deixou de pontuar os ditongos abertos EI e OI, as paroxítonas com I e U tônicos que formam hiatos e as formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com U tônico precedido de G ou Q e seguido de E ou I. O circunflexo não acentua mais palavras terminadas em OO. Também perdeu as horas-extras que fazia acentuando a conjugação da terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos CRER, DAR, Ler e VER. O agudo e o circunflexo diferenciais pararam o trabalho com as palavras homófonas e as de grafia idêntica [ainda permitiram que o circunflexo acentuasse PÔR (verbo) e PÔDE (verbo) em reconhecimento aos anos de trabalho dedicado deste funcionário).
    O trema foi demitido e ficou trabalhando como autônomo exercendo a função de dois pontos.
    No setor de palavras compostas, alguns hífens não aceitaram as propostas da empresa e pediram demissão, forçando, assim, algumas letras (o R e o S) a trabalhar dobrado, enquanto outros hífens resolveram permanecer perdendo alguns benefícios.
    Alguns estagiários, o K, o W e o Y, foram promovidos a funcionários efetivos.
    Quando todas as mudanças já estavam em vigor, os funcionários foram informados de que a crise globalizante também atingiu a matriz da empresa, situada em Portugal, e outras filiais pelo mundo (como as de Angola, Cabo Verde, Timor-Leste, entre outras).
    O setor de pontuação não sofreu alterações. Os comentários no setor de acentuação é que os sinais de pontuação subornaram as aspas. De acordo com declaração dada pelo trema, o suborno foi ideia do ponto final.

domingo, 3 de abril de 2011

Não um manifesto, uma manifestação

Uma "Rosa do Povo" germina em Boqueirão. Um eco de poesia dali; um causo contado acolá; contos e crônicas fervilhando por aí, e uma radícula de Literatuta de forma, e se inquieta, e quer brotar. Quando as condições ambientais são favoráveis, a semente germina. Uma raiz feita de letras quer romper o solo da inércia, ver a luz de uma aurora poética. E ela rompe. Vê-se agora uma caule: ele está lá, entre macambiras e xiquexiques, entre pedras e preás, ao regalo de um vento sem direção, mas sob um sol acolhedor. O tempo passa, o vento empurra, o sol aquece, a imesidão de um açude inspira, enquanto versos e parágrafos se entrelaçam e se retorcem, formando sutilmente galhos e espinhos: a Rosa está a caminhos! Desses galhos surgem vozes, surgem visões, surgem razões e delírios: um frêmito de arte se mistura à seiva desta planta, cujas folhas, viçosas, anunciam o desabrochar da Literatura em Boqueirão. Sou capaz de ouvir Drummond dizendo: "[...] um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha, e uma rosa se abre [...]". É Drummond... nós cultivamos essa Rosa, e nos regozijamos com o perfume de suas pétalas. Reguem, reguem essa Rosa, e propaguem o seu perfume.

Maxwell F. Dantas

(Membro da ABES)


Texto lido no encerramento da 2ª FLIBO.

quarta-feira, 23 de março de 2011

II FLIBO - Feira Literária de Boqueirão

Apreciadores da literatura, escritores, poetas e quem mais estiver interessado, estão todos convidados para a II FLIBO, a segunda Feira Literária de Boqueirão que ocorre do dia 24 ao dia 27 de março de 2011. Palestras, mesas redondas, mini-cursos, apresentações culturais, poesia ao pé do ouvidos, entre outras atrações e imprevistos. Espero vocês lá!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Poema: O punho e o Sol

Homem que tira leite de pedra
Trincando os dentes, de mão rachada
Garante que o sol não quebra
Ao som estridente da enchada
A força do punho tenaz

Imponente feitor seca a folha e a face
Queima o solo e a esperança
Ilumina a terra quando nasce
e o olhar que longe lança
Mas não torna o punho incapaz

O brilho do sol no leste
Que cedo desponta da serra
De igual beleza no oeste
Quando à tarde o dia encerra
Não muda o que o punho faz

Desde criança essa luta
Trabalha, casa e tem filho
Untando o sol com a labuta
Plantando feijão e milho
O punho do homem não jaz

Quando o sol, distraído, vacila
E a chuva o trabalho compensa
O solo antes roto cintila
Mas o homem vivido já pensa
Baixar o punho jamais

Sereno e cansado no olhar
Nas mãos vê os calos que fez
Sem saber o que vai encontrar
Vê o sol pela última vez
O punho descança em paz

Este poema está no livro I Antologia Poética:
Novos Poetas do Cariri Paraibano

segunda-feira, 15 de março de 2010

Poema : Quase um poema

Gosto de poesia
Mas sou apenas um quase poeta
Sou mesmo um escritor (ou quase)
Quase escrevi grandes romances
Romances quase importantes
Quase romances grandiosos
Livros quase raros

Quando morri, quase fui esquecido
Quando vivi, quase sempre morri
Quase consegui ser o que queria ser:
Ser um quase líder
Um quase professor
Quase grande
Quase...

Quase consegui amar incondicionalmente
Quase fui feliz
Quase livrei-me do céu e do inferno
Quase fui inconsequente
Quase fui um eterno aprendiz
Quase fui moderno

Quase escrevi um grande poema
(tão belo e sincero
quanto aqueles que quase inteiramente entendi
e que os Grandes Mestres quase sussuraram-me aos ouvidos)

Estou quase satisfeito com meu feito
Que quase consegui bem concluir

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Palavra primeira

Da fricção entre a realidade externa e a realidade subjetiva do autor, o resultado é a ficção. ao friccionar a língua sobre o seu fito, e vice-versa, o autor obtém o texto literário, ou seja, sua realidade fictícia. Quando ficciona os fatos, as imagens, os outros e a si próprio, o autor decide, inexoravelmente, produzir um contínuo movimento de fricção. A despeito de toda fricção causar, inevitavelmente, desgaste entre os corpos, o desgaste desta f(r)icção, não mais que os lapidará. Logo, podemos dizer que a ficção literária é inversamente proporcional a fricção dos corpos que a produz; ou pelos menos, deveria ser.